Quinta-feira, Maio 31, 2012

Salvar pra quê? Pra quem?

A nova modinha dos descolados baianos é para salvar o Cine Jandaia. Repetem-se os discursos como na venda do Bahiano de Tênis e na reforma do Glauber pelo Unibanco (que por sinal preservou o local).
Gritam que é absurdo! Falam da falta de preservação do espaço! Exigem do poder público que injete dinheiro para salvar o local!
E pra quê?
Só posso imaginar que seja pra dar algum cargo em fundação ou autarquia pra algum sujeito, que certamente tem um ótimo projeto de reestruturação do Cine Jandaia e que, nos primeiros meses, vai apresentar obras obscuras dos amigos artistas, às custas do dinheiro público, e depois deixar o mondrolho pro Estado.
Se o público gosta de um local, que vá ao local. Se o cinema/teatro/casa de espetáculo tiver público, ele não fecha.
Os baianos abandonaram os cinemas atrás dos Multiplex e agora reclamam que os cinemas fecharam.
Tenham dó. O dinheiro público não pode ser usado para manter o que, quando era privado, mas o público nso queria.
Quem fechou o Jandaia não foi o político relapso, o pastor sem coração ou o vilão malvado da novela das oito. Quem fechou o Jandaia foi a ausência das pessoas, boa parte delas hoje na moda do politicamente correto de pedir por sua abertura.

Terça-feira, Maio 22, 2012

A internet invade a TV

E a imbecilidade coletiva, que tem na internet uma grande aliada, passou pelo filtro que se espera existir num telejornalismo e foi exposta no Bom Dia Brasil.
Ao comentar a lei que obriga os diplomas a flexionar o gênero nos títulos acadêmicos (bacharela, doutora, mestra), Chico Pinheiro, que apresenta o jornal com a informalidade e responsabilidade das loiras e morenas dos programas matutinos de fofoca e culinária, reproduziu a idiotice que já se repetiu nas redes sociais: "Agora, quando for um dentista homem, vai ter que chamar dentisto. Afinal, são direitos iguais".
Seguida a essa imbecilidade, falaram "estudanta", "jornalisto", e o tom não era de piada.
É óbvio, mas no atual estado de falta de bom senso em que vivemos, o óbvio precisa ser dito, que a lei que obriga a flexionar o gênero só será aplicada aos gêneros que flexionam. . Para as mentes pequenas, que reduzem o mundo a masculino e feminino, vale informar que os gêneros também são mais que apenas dois. Sugiro uma leitura do que seja sobrecomum, comum de dois e epiceno.
E, como se a estupidez não fosse suficiente, uma ignorância que para um jornalista (esse é comum de dois) não pode ser perdoada: a profissão é "cirurgião-dentista", podendo esse ser flexionado para "cirurgiã-dentista"sem problemas. Até o exemplo foi equivocado.

Segunda-feira, Maio 21, 2012

Você vai ver em breve...

Sérgio Chapelin - 25/05/2012: "O abuso sexual na infância! Quais as consequências? Quem são os abusadores? Uma apresentadora famosa vai falar como superou esse trauma e hoje está lançando seu 45º DVD!"

William Bonner - 28/05/2012: "ONG lança campanha contra abuso infantil junto com a apresentadora Xuxa Meneghel"
Patrícia Poeta - 28/05/2012: "A apresentadora, que na semana passada deu entrevista exclusiva e polêmica ao Fantástico participou do lançamento da campanha".

Renata Ceribelli - 02/06/2012: "Ela deu a volta por cima e essa semana se prepara para voltar ao horário que a consagrou na TV brasileira".
Zeca Carmargo - 02/06/2012: "Xuxa está de volta fazendo a alegria dos baixinhos nas manhãs de segunda a sexta. E o Dr. Drauzio Varela vai falar das consequências psicológicas do abuso infantil".

Sônia Abrão - 05/06/2012: "E hoje nós vamos ver uma entrevista bombástica com a viúva de Claudio Borges. Ele, que foi aí, né, professor da Xuxa, da apresentadora Xuxa Meneghel, e que morreu na noite de ontem e, quem sabe até, já se especula se essa morte não foi, né, em consequência da entrevista da Xuxa. A gente na verdade não sabe, porque, ele morreu, pelas informações que temos até agora, em virtude do deslizamento de terra causado pelas chuvas, mas há quem veja, na verdade, uma relação entre os fatos. Nossa repórter já está no funeral do professor e eu vou pedir que ela pergunte à viúva se ela pretende, na verdade, processar a Xuxa".

Quarta-feira, Abril 25, 2012

Olé

Mais uma matéria sobre baianos que não conseguiram entrar na Espanha.
Nos relatos, as pessoas confundem maus tratos, com um tratamento não polido.
Uma disse que uma senhora diabética foi mal tratada. Essa senhora, ao ser entrevistada, disse que pedia para que deixassem ela entrar no país para ver a filha, porque estava com saudade e eles negaram. E o país tem obrigação de deixar entrar quem tem diabetes ou sente saudade?

Outra reclamou que os medicamentos dela foram recolhidos e, na hora dos remédios, eles traziam e ela só podia pegar a quantidade certa daquela hora.
E pra quê que ela queria ficar com todos os medicamentos? Iam tentar se suicidar?

Outra reclamação foi que eles teriam dito que "quem sentir dor de cabeça à noite nem adianta chamar que eles não trariam remédio". Duvido que a Espanha tenha regras específicas para dores de cabeça noturnas. Mais fácil imaginar que tenham dado um aviso, ainda que grosseiro, sobre o horário de funcionamento do setor que confiscou os remédios.

Uma outra disse que recebia "comida de mendigo". Bom, a Espanha está dm crise, não pode servir paella para os barrados na imigração.

Não que o direito do país de aceitar ou não quem entra em suas fronteiras, seja motivo para maus tratos. Mas sabendo que a imigração espanhola tem um péssimo atendimento, fico me questionando por que os brasileiros continuam indo pra lá.

Turismo? A Europa tem lugares lindo e que recebem muito bem o turista. Esses baianos não tem cara de que já visitaram o resto todo da Europa.

Visitar parentes? Se a saudade é tanta, por que o parente não vem ao Brasil? Ou será que é porque esse parente está lá de forma irregular e não pode sair sob risco de não poder voltar? Nesse caso o país deveria se submeter a isso?

Quanto ao mau tratamento, que a gente sabe que existe, por outros relatos, apesar de achar que isso ultrapassa o direito do país e está errado mesmo, mas não me parece nada diferente do que boa parte dos brasileiros recebem nos serviços públicos de seu próprio país.

É a classe média brasileira constatando que, lá fora, ela entra pela porta do SUS!

Terça-feira, Abril 03, 2012

Me faça uma garapa!

Cada vez mais tenho vontade de repetir a frase do título, a qual ouvia de minha mãe desde o tempo em que eu não tinha idéia do que fosse uma garapa. Outras vieram depois, "me deixe", "se saia", "me poupe"... Mas "me faça uma garapa" ainda me parece muito adequada em certas ocasiões.
Ocasiões como quando percebo que virou lugar comum na internet (como se tudo na internet, pela facilidade com que é replicado, não fosse lugar comum), dizer que as pessoas são mais felizes no Facebook, no MSN, no Instagram do que na vida real.
Oh! Amigo, você acha? Parabéns, você acaba de descobrir que as pessoas mentem. Surpresa.
Desde que aprendeu a se comunicar, os homens contam as suas historias de forma fantasiada.
A realidade é vista, sentida e presenciada por todos. Ela é comum. Não precisamos compartilhá-la. Pelo menos não com todo mundo e não com tanto entusiasmo.
A realidade é o ascensorista me perguntando pra qual andar que eu vou, a realidade do Facebook é se eu disser que o cara do elevador parece Cauã Raymond e declama os andares pedidos em rap.
Quem quer realidade, por favor, leia o jornal. Ou melhor, fique na porta de casa olhando em volta.
A festa não está tão animada ou a turma não é tão amiga quanto aparece na foto? E daí? A caçada não é tão gloriosa quanto desenhada na caverna, a jornada não é tão emocionante quanto narrada na Odisséia, as vitorias não são tão retumbantes quanto descritas nos livros, nem a Mona Lisa tão enigmática quanto o quadro. As paixões nunca são tão grandiosas quanto cantadas e nem vou falar dos relatos religiosos.
Se ouvirmos um mesmo fato relatado por cada envolvido individualmente, ouviremos cada um narrando o que fez de certo, ainda que o resultado tenha sido um fracasso. Ninguém relata suas falhas, mesmo os mais sinceros só o fazem em casos excepcionais, onde haja relevância nessa confissão. Nos relatos do dia a dia, só revelamos o melhor de nós mesmos.
Nenhum adulto ouve alguém falar de si mesmo sem dar "um desconto" quando é exigido. Na maior parte do tempo, esses pequenos retoques na história são inofensivos e ninguém se importa. Nos distraímos com isso, nos sendo indiferente se é verdade ou não. Ninguém liga. Ninguém, não. As pessoas realmente chatas, que não conseguem ser interessantes nem maquiando suas vidas, fazem questão de estragar o brinquedo alheio.

Domingo, Março 25, 2012

A César o que é de César

Não quero defender Thor Batista, porque não tenho preocupação com o sofrimento dele. Mas me preocupa a falta de maturidade dos brasileiros em tratar com questões jurídicas com serenidade, optando pelço linchamento para colocar pra fora toda a opressão que não tem competência para combater com ações de cidadania.
Os fatos até agora: Thor Batista atropelou um ciclista e esse morreu. Thor Batista prestou socorro à vítima, foi até a Polícia Rodoviária relatar o ocorrido.
A favor de Thor Batista temos:
1 - Fez o teste do bafômetro e provou que ele não bebeu;
2 - Um laudo mostra que ele não estava acima da velocidade máxima permitida;
3 - Um exame diz que o ciclista estava bêbado, o que pode levara crer que ele foi descuidado e estava no meio da pista como Thor alega.

Contra Thor Batista pesam:
1 - Seu histórico de muitos pontos na carteira;
2 - A alegação da família da vítima que acha que ele estava no acostamento e deduz isso pelas marcas de sangue;
3 - Ser rico;

Os pontos na carteira de habilitação realmente tem que levar a uma investigação apurada sobre a culpa de Thor, uma vez que ele era mau motorista. No entanto, diante da constatação de que ele não estava acima da velocidade permitida (Perito diz que Thor Batista não teria ultrapassado 100 km/h), vamos então colocar Thor 1X0 Ciclista;

Usar como provas os depoimentos dos familiares das vítimas é ridículo e não seria levado a sério em nenhum lugar do mundo, uma vez que nenhum testemunhou o fato, apenas especulam, dizem que "deve ter sido".

A tia e mãe de criação de Wanderson, Maria Vicentina Pereira, também confirmou que o sobrinho andava pelo acostamento. "Ele fazia esse trajeto todos os dias durante 30 anos. Pelas manchas de sangue que ficaram marcadas no chão dava para ver que ele foi atingido quando andava pelo acostamento", afirmou.

Então Dona Maria Vicentina faz parte do CSI? Ora, tragam um perito que diga isso e a gente passa a ouvir, mas por enquanto é Thor 2 X 0 Ciclista.

A estrada era mal iluminada e Thor alega que não viu o ciclista que estava no meio da estrada de forma imprudente. Como o ciclista estava bêbado, fechamos o placar de 3 a 0 para Thor. Mas aí vem a parte que incomoda os brasileiros: Thor batista é rico. Muito rico. E pelo nosso imaginário, ricos são bandidos. Educados por telenovelas, pensamos em Eike Batista como se fosse Teresa Cristina ou Odete Roitman.
Além de não possuírem caráter, pensamos, os ricos compram tudo. E perto deles todos, policiais, peritos, delegados, juízies, se tornam corruptíveis.

Todas as provas que Thor consiga obter são refutadas pela população sob o mesmo argumento: "ele é rico, então as provas DEVEM ser falsas".  Pouco importa se as perícias não costumam apresentar laudoi falso com jorgadores, pagodeiros e políticos que antes cometeram crimes. Em nenhum dos casos conhecidos houve laudo tirando a culpa dessas pessoas, se algumas não foram para a cadeia foi porque podiam pagar bons advogados para vasculhar as falhas no sistema. Mas os laudos sempre apontaram quando o motorista estava bêbado ou em alta velocidade. Será que essas pessoas também não tinham dinheiro pra tentar comprar um laudo? O pai do assassino do filho de Cissa Guimarães até tentou, e foi indiciado por tentativa de suborno no ato, antes mesmo de os policiais saberem que a vítima era filho de uma celebridade.
Por que de repente, todos os agenbtes públicos se tornariam corruptos?
Com isso não estou dizendo que não há compra de laudos e ocultaçãod e provas, mas então que apareça outro perito que mostre porque ele acha que o carro estava a mais de 100 km/h, ou um médico que diga que o ciclista não estava bêbado, ou uma testemunha que diga que o cara estava no acostamento. Mas nada disso até agora apareceu, apenas a mesma ladainha "ele deve ser culpado, pois ele é rico e pode comprar todo mundo que fala a favor dele".

Ninguém nega que Thor atropelou o ciclista, aliás, ele mesmo parou, prestou socorro e foi procurar a polícia. Mas a questão é se Thor agiu irresponsavelmente contribuindo para o ocorrido ou se foi um acidente. O qual, por sinal, pode acontecer com qualquer pessoa.

Domingo, Março 18, 2012

Salvemos nós dois.

A primeira vez que vi isso foi no Shopping em Feira de Santana.
Depois foi no Edd Burguer, na Pituba.
Hoje, no Itaigara, no Caminho de Casa, vejo pela terceira vez uma mãe trocando a fralda do filho em uma mesa de restaurante.
O cúmulo da falta de higiene e respeito. Nem os animais, pelo menos os que eu conheço, misturam fezes e alimentos no mesmo local.
Eu sei que uma das consequências do inevitável processo de idiotização da humanidade, o qual estamos tendo o privilégio de testemunhar, é a transformação de espaços públicos em extensão do espaço privado de cada um.
É o pé na poltrona do cinema, falar ao celular no elevador, armários nas garagens dos prédios, som alto dos carros e por aí vai. Mas quando se trata de mãe e seus rebentos, parece que estamos falando da genitália da mãe de Deus. É algo que não devemos sequer mencionar, quanto mais criticar.
É como se, pela grande proeza de trazer ao planeta mais pessoas para consumir os já escassos recursos, essas pessoas ganhassem o direito de obrigar as outras pessoas a suportarem a correria, os gritos e, agora, o cocô dos seus filhos.
Se o ambiente não possui um local adequado para trocar a fralda do bebê, e, pelo menos, no Shopping eu sei que tem, os pais devem ir a outro local.
Cabem a eles, e só a eles, o ônus pela paternidade e maternidade. Não há sentido em dividir com a sociedade, como se devêssemos ser gratos por esse "favor" que fizeram ao mundo.
Certa estava Rita Lee: tudo, inclusive o padrão mínimo de civilidade, está virando bosta.

Quarta-feira, Março 14, 2012

Justiça em pirataria

A indústria do entretenimento diz que a pirataria é o mal do setor. Os usuários dizem que é o preço alto dos produtos. Pra mim, é o desrespeito ao consumidor.
Costumo comprar caixas e caixas das séries que não consigo acompanhar pela tv. Em geral, aguardo o preço cair depois do lançamento da temporada seguinte.
Pois bem. Com o lançamento da 5ª temporada de Justiça Sem Limites (Boston Legal), tentei comprar a 4ª, porém em todos os sites de compra a informação era a mesma: produto indisponível.
Procurei a Fox e me informaram que o produto "havia esgotado".
Ai já é subestimar a minha inteligência. Como poderia a 4ª temporada ter se esgotado, se há várias ofertas de todas as demais? Será que varias pessoas resolveram comprar apenas essa temporada da série, ignorando as anteriores e a seguinte? Só se tivessem extras com os vídeos de Pamela Anderson e Paris Hilton!
Sabendo que a versão argentina tinha legendas em português, procurei por lá, mas também só encontrei outras temporadas, mas nunca a 4ª. Nem nos sites.
Coincidentemente, a produtora que descontinuou a série Buffy no Brasil, fazendo com que quem tinha comprado as primeiras caixas amargasse um prejuízo, lançou o box Justiça Sem Limites -A série completa.
Recusei-me a dar dinheiro pra Fox, adquirindo 3 temporadas que eu já tinha, só para ter a continuidade da série. Recorri, então, à pirataria.
Comprei em um site a temporada, percebendo que é a única das 5 que não tem áudio em português, apenas legenda, o que indica que teve sim, um tratamento diferenciado das demais para o nosso mercado.
Aliás, o site tem muito o que ensinar as grandes empresas sobre atendimento ao consumidor. As dúvidas que tinha antes da compra foram respondidas rapidamente e a vendedora sempre atenciosa.
Agora fica a questão: confio em comprar novas séries da Fox, ao custo de R$ 50,00 por temporada, quando o preço cai, com o risco de serem descontinuadas ou compro pirata, por metade do preço?

Sábado, Março 10, 2012

Golfinho

Golfinho - Duda Valverde

Essa música vai pro meu amigo que não tem Facebook. Os motivos de não estar na rede social ainda são parte do seu charme,  do que o faz tão especial e querido por todos (bom, nem todos, e certamente nem todas, mas isso também faz parte do seu charme).
No momento, talvez ele não perceba isso, mas em breve ele transforme esse cais num mar e volte a nadar tão livre como gosta.
Eu realmente te amo. Saiba que torço por você e gosto mesmo desse seu jeito enrolado e furão de ser. (Só pra você não estranhar que qualquer elogio tem que ter uma porrada).

Pra quem não conhece e pra quem ama.

Você já viu Jussara Silveira?

Ricardo Freire
(Jornal da Tarde - 25/10/2000)

Eu sou do tempo em que Chico Buarque tocava na FM. E não era em rádios tipo a Eldorado, não: era em qualquer FM. Lembro perfeitamente que Geni e o Zepelim ficou semanas a fio em primeiro lugar na parada - pasmem - da Rádio Cidade (em Porto Alegre, pelo menos). Tudo bem que estava todo mundo besta de a censura (a temível Dona Solange) ter liberado o verso joga bosta na Geni. Era mesmo inacreditável poder ligar o rádio e cantar junto joga bosta na Geni! joga bosta na Geni! - parecia o primeiro sinal de que um dia os milicos iam realmente cair. Palavrões à parte, o fato é que, naquele tempo, MPB e FM conviviam no mesmo alfabeto. Naquele verão de 79, centenas de milhares de argentinos aproveitaram o câmbio vantajoso (é a chamada Lei de Passarella: argentino gosta de levar vantagem em tudo) e invadiram o Brasil. Cada um deles voltou para casa com uma TV colorida 14 polegadas no colo e um disco da Ópera do Malandro debaixo do braço. Ruêga buêsta en la Reni! Mas a canção da Ópera do Malandro que fez mais sucesso não estava naquele LP: era O Meu Amor, na versão de Maria Bethânia e Alcione, que tinha saído no disco Álibi, de Bethânia, em 78. Tratava-se de uma música com carga erótica mais intensa que O Último Tango em Paris (que, se não me engano, tinha sido liberado na mesma época). Chico Buarque nunca levou tão a fundo sua poesia com voz de mulher. A música dizia coisas como roçar a nuca com a barba malfeita, pousar coxas sobre coxas, rir do umbigo e cravar os dentes - uma coisa louca, de não se poder ouvir na frente dos próprios pais. Uma geração mais tarde, cá estava eu lendo meu jornal quando vi que Bethânia ia se apresentar em São Paulo, com convidadas; e que uma das convidadas era Alcione; e que uma das músicas que elas cantariam em dueto seria exatamente O Meu Amor. Uêba! Recordar é viver! E então, enquanto todo mundo ia ao Free Jazz, lá fui eu para o Credicard Hall. Eu já escrevi aqui uma coluna sobre Alcione (na verdade, era mais sobre o Teatro Rival, no Rio), mas acho que nunca falei de Bethânia. Vou tentar resumir o que eu penso em poucas palavras. Para mim, Bethânia não é uma cantora: Bethânia é uma entidade. Bethânia é o quinto elemento. Bethânia é o 13º signo. Bethânia é uma minoria sexual em si. Bethânia é tudo. E minha caixa postal recusará automaticamente todos os e-mails em contrário. O show demorou para esquentar (talvez porque aquelas que costumam gritar Poderosa!, Vitaminada!, Hierárquica! deviam estar todas no Free Jazz). Quando Bethânia e Alcione cantaram O Meu Amor eu ainda estava frio, tentando imaginar uma maneira de ignorar o eco joão-gilbertiano do Credicard Hall (sim, ele existe, não é frescura) e tecendo comparações sempre favoráveis ao Palace (sim, eu gosto mais de Congonhas do que de Cumbica). Veja bem: não é que não estivesse gostando - eu só não estava adorando. Até que de repente entraram as outras três cantoras convidadas. Uma delas, Jussara Silveira. Você já ouviu Jussara Silveira? Eu já. Tenho os dois discos dela. O primeiro, independente, gravado em 96 (depois reeditado pela Dubas, de Ronaldo Bastos), tem um repertório muito bem-escolhido e bem-arranjado (baianos novos, um Luiz Melodia clássico, um Chico e um Caetano pouco batidos). O segundo, já sob os cuidados de Ronaldo Bastos, é uma antologia de canções de Dorival Caymmi que rivaliza com o impecável Gal Canta Caymmi, de 75. Eu já tinha ouvido Jussara Silveira. Mas eu nunca tinha visto Jussara Silveira. E isso faz toda a diferença do mundo. Onde foi parar aquela timidez que a gente ouve no disco? Ao vivo, ela desaparece atrás de um nariz semita capaz de promover a paz entre judeus e palestinos. E de um decote que muitas modelos fariam fila na Santé para poder usar. Sua presença cênica amplifica, e como, o impacto de sua voz - cujo charme vem de um levíssimo esganiçado que lhe confere uma beleza estranha e singular. É como se fosse Gal, mas sem a perfeição irritante da voz de Gal. É como se fosse Bethânia, mas com uma voz mais bonita que a de Bethânia. Enquanto as outras, até mesmo Alcione, desapareciam perto da anfitriã, Jussara Silveira se mostrava à vontade, como se Bethânia fosse sua convidada. Mas daí ela cantou três musiquinhas e tornou à coxia, voltando ao palco só como backing vocal. Na volta, corri para a Internet, e descobri que a moça canta há 15 anos, e já até andou fazendo shows em São Paulo, nos idos de 97 e 98. Meu Deus, em que planeta eu estava? Volta, Jussara! Que três musiquinhas não são nada...